A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou recentemente a atualização de suas diretrizes (Outubro 2025) para o manejo do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Como psicólogo clínico e estudioso da Neuropsicologia, considero fundamental traduzir essas recomendações técnicas para que pais e cuidadores possam tomar decisões seguras e baseadas em evidências.
O documento reforça a importância do diagnóstico precoce, esclarece mitos sobre tratamentos alternativos e reafirma quais terapias realmente funcionam. Vamos aos pontos principais:
1. O Diagnóstico é Clínico e Cada Vez Mais Precoce
A SBNI reafirma que não existe um “exame de sangue” ou de imagem para detectar o autismo. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseando-se na observação do comportamento e no histórico da criança, seguindo os critérios do DSM-5.
A novidade: Estudos citados mostram que o diagnóstico já pode ser estável e seguro a partir dos 14 a 16 meses de vida.
- Sinais de Alerta Precoce: Falha no contato visual, ausência de imitação, não responder ao nome e atraso na comunicação não-verbal.
- Ferramentas: O uso de escalas de rastreio como o M-CHAT continua sendo recomendado e fundamental nas consultas de rotina.
2. A Ciência do Tratamento: O Que Funciona?
O documento é categórico: as abordagens com maior evidência de eficácia são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA).
É importante esclarecer uma confusão comum: modelos de intervenção naturalista (como Denver, Jasper ou PRT), indicados para crianças pequenas, também se baseiam nas técnicas da ciência ABA. Ou seja, a intervenção pode ser estruturada ou naturalística (brincando no chão), mas deve seguir princípios comportamentais científicos.
A SBNI lista 28 práticas baseadas em evidências, incluindo:
- Intervenção mediada por pais (treinamento parental).
- Treino de habilidades sociais.
- Modelagem e Reforçamento.
- Comunicação Alternativa e Aumentativa.
3. Cuidado com Tratamentos Sem Evidência (Alerta de Segurança)
Com a disseminação de informações nas redes sociais, muitas famílias buscam “curas” ou tratamentos alternativos. A SBNI alerta que NÃO HÁ evidências científicas que comprovem a eficácia de intervenções como:
- Dietas sem glúten/caseína (salvo em casos de alergia comprovada).
- Suplementação de vitaminas sem deficiência diagnosticada.
- Oxigenioterapia hiperbárica.
- Uso de canabidiol para sintomas centrais do autismo (ainda considerado experimental e sem evidência robusta para o TEA em si, embora estudado para comorbidades).
- Quelantes de metais pesados e Ozonioterapia.
O risco dessas intervenções não é apenas financeiro, mas pode trazer efeitos colaterais e afastar a criança das terapias que realmente funcionam.
4. O Papel da Medicação
Não existe remédio para “tratar o autismo”. A medicação entra apenas para tratar comorbidades ou sintomas que causam sofrimento e impedem o aprendizado, como:
- Agressividade e irritabilidade severa.
- TDAH associado.
- Distúrbios graves do sono.
- Ansiedade e Depressão.
5. A Importância da Família e da Equipe
O tratamento padrão-ouro é transdisciplinar. Psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e médicos devem falar a mesma língua.
Mas o ponto crucial reforçado pelo documento é o Treinamento Parental. Dada a importância da generalização do aprendizado, os pais devem ser orientados para estimular a criança em casa, transformando o dia a dia em oportunidade de desenvolvimento.
Conclusão: O Caminho é a Ciência
O TEA é complexo e cada indivíduo é único. O nível de suporte (1, 2 ou 3) pode mudar ao longo da vida com a intervenção correta.
Como profissional da saúde mental, meu compromisso é seguir estas diretrizes: oferecer acolhimento humano, mas sempre alicerçado no rigor técnico da Neuropsicologia e das Terapias Cognitivas e Comportamentais.
Se você notou sinais de atraso no desenvolvimento do seu filho, não espere. A intervenção precoce aproveita a neuroplasticidade do cérebro infantil e muda trajetórias de vida.
Fonte: Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI). Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno do Espectro Autista (atualização). Outubro 2025.





